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Os impactos de uma Paternidade ativa no mundo

07/08/2020

A paternidade e o cuidado importam. É o que revela o crescente conjunto de estudos produzidos no mundo sobre o tema ao longo das últimas duas décadas. O assunto tem conquistado cada vez mais espaço na agenda pública global de promoção da equidade de gênero, dos direitos sexuais e reprodutivos, da prevenção da violência, das discussões sobre alterações climáticas e meio ambiente, crise econômica, imigração, etc.

Existem evidências claras sobre o impacto positivo do envolvimento do homem no cuidado para a vida de crianças e mulheres, especialmente para a saúde materno-infantil, desenvolvimento cognitivo da criança, empoderamento da mulher, além de apresentar consequências positivas para a saúde e bem-estar dos próprios homens.

Entretanto, programas desenvolvidos seja pela sociedade civil, ou por empresas, ou pelo próprio Estado, que envolva, trate, acolhe, e trabalhe com HOMENS PAIS, são ainda muito poucos.

E é nessa batalha que iniciativas como a 4daddy (www.4daddy.com.br) se organiza e articula. Nossa missão é sensibilizar a sociedade civil, empresas e o Estado, da importância de abordarmos as temáticas Paternidades e Masculinidades, com o objetivo de combatermos o machismo estrutural, caminharmos para a igualdade de gênero, e principalmente propiciarmos um ambiente saudável para o desenvolvimento saudável da nossa primeira infância.

O investimento em políticas de valorização da paternidade e do papel do homem como cuidador tem o potencial de desconstruir um modelo dominante de masculinidade – patriarcal e machista –, que reforça a desigualdade de gênero, abrindo caminho para a construção de outros modelos que não sejam violentos, mas baseados no afeto e no cuidado.

Há inúmeras oportunidades e frentes para trabalharmos com Homens/Pais, como:

  • Pré Natal do Parceiro: uma política pública do Ministério da Saúde que ainda engatinha para uma implementação eficiente;
  • Pais nas escolas: uma porta de entrada interessante fomentar a aproximação dos Homens Pais com as escolas. Ou então, trabalhar dentro das escolas a temática Paternidade, principalmente com jovens pais. Para não reproduzirem uma paternidade ausente e violenta;
  • Espaços públicos: trazer aos espaços públicos símbolos que incluam o homem no papel de cuidado. Por exemplo: fraldários em banheiros masculinos.
  • Educação: possibilidades de tornar acessível e engajador conteúdos educativos sobre paternidades nos variados ambientes que possam ser considerados masculinos.

As possibilidades acima, são apenas algumas. Podemos criar mais algumas infinidades de programas, ações e intervenções. Basta interesse social e político!

Diversas questões emergem desta relação quando a responsabilidade pelo cuidado é compartilhada com as mulheres e incorporada ao cotidiano destes homens, como o equilíbrio entre o sucesso profissional e o bem-estar da família, ou mesmo sobre o que significa ser homem nos dias de hoje. Entre as dimensões que devem ser consideradas no desenho do panorama da paternidade no Brasil está a relação do setor privado e as práticas relacionadas à paternidade e ao trabalho de cuidado.

Embora existam dados limitados que nos permitam efetivamente avaliar a situação no país neste segmento, as empresas têm um papel importante a cumprir na direção da promoção dos direitos igualitários entre homens e mulheres, entre pais e mães. O setor privado precisa compreender que a dinâmica das relações de trabalho, procedimentos e políticas internas estão intimamente ligadas às condições necessárias para produzir justiça social no campo da equidade de gênero.

Horário flexível de entrada e saída do trabalho, por exemplo, deve ser considerado para que os trabalhadores possam prestar o cuidado necessário às crianças para que se desenvolvam. Amamentação, consultas de pré-natal, visitas aos serviços de saúde, além da adequação do número de vagas e dos horários de trabalho aos horários de entrada e saída de creches, estão no rol das ações a serem adotadas por empregadores(a).

As mulheres são cerca de 40% da força de trabalho no mundo e 80% dos homens serão pais. Por que um relatório sobre paternidade e cuidado no Brasil? 19 partilhar o trabalho de cuidado com as mulheres. Na sessão Paternidade e o Mundo do Trabalho, abordaremos temas referentes à influência das desigualdades de gênero no compartilhamento das tarefas domésticas e de cuidado, além dos custos estimados da ampliação da Licença-Paternidade no Brasil. A ampliação de 5 para 20 dias se deu graças à aprovação, em 2016, do Marco Legal da Primeira Infância, que traz a compreensão do envolvimento paterno entre direitos das crianças pequenas.

Embora ainda distante da licença-parental, realidade nos países que apresentam atualmente os melhores indicadores no campo da equidade de gênero ao redor do mundo, é considerado um avanço no Brasil. O crescente conjunto de evidências científicas e iniciativas no campo das políticas públicas revela a emergência de outros modelos de famílias que se distanciam da referência histórica da família nuclear formada por pai, mãe e filhos(as).

O maior envolvimento dos homens na paternidade e no cuidado tem o potencial de gerar benefícios para a saúde e bem-estar de homens, mulheres e crianças.

No entanto, para que esses debates e ações reverberem de modo mais pujante na sociedade brasileira, alcançando uma real mudança nos padrões de gênero e contribuindo para a igualdade de direitos entre homens e mulheres, é importante que empreendam uma leitura crítica de gênero, pautada no nos avanços feitos pelos movimentos de mulheres e feministas e pelos movimentos em defesa da diversidade sexual. Caso contrário, as iniciativas podem manter e até reforçar estereótipos de gênero e práticas sexistas e machistas. Mesmo os conflitos entre o casal e na educação dos filhos e filhas passam a ter outras ferramentas de resolução além da violência.

A qualidade da prestação de cuidados pelos homens está intimamente relacionada a compreensão do seu papel em determinado contexto cultural. E não nos referimos a comportamentos similares observados dentro de um mesmo espaço geopolítico, como um país, estado ou município. Pode variar de uma comunidade para outra na mesma região, por exemplo. Os pais fazem diferença neste momento da vida não por serem homens, mas por cuidarem, não importando o seu sexo biológico.

Não se trata apenas de circunscrever a presença do pai nesta fase da vida, mas realçar a influência deste momento para o desenvolvimento das crianças, adolescentes e jovens adultos no decorrer da vida. O vínculo entre cuidadores e crianças se torna mais forte e duradouro quando é construído o mais cedo possível. É este vínculo que vai determinar a continuidade do cuidado ao longo da vida mesmo quando os cuidadores vivem em casas diferentes. Entretanto, o aumento da participação masculina no cuidado está intimamente ligado a uma mudança na cultura que permita ao homem exercer o papel de cuidador. Um excelente passo é o fortalecimento de políticas públicas voltadas à primeira infância e outras políticas sociais que favoreçam o crescimento e o desenvolvimento de crianças e adolescentes e promovam o envolvimento dos homens como pais e cuidadores.

Autor: Leandro Ziotto, pai afetivo do Vini e fundador da Plataforma 4daddy de produção de conteúdo, programas e formação parental e masculinidades.

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